terça-feira, 4 de março de 2008

A fuga à “geração tabuleiro”


Pertenço à famosa “geração rasca”, os putos que mostravam o traseiro à venerável ministra e aos dedicados deputados. Cavaco saiu, Guterres entrou, e curioso foi mesmo verificar que aqueles que tão cepticamente nos haviam etiquetado como dano colateral da laranjada, à época paternalisticamente já nos designavam por “geração à rasca”. Up grade? Não creio. Terá sido mais um pedido de desculpas encapotado pela realidade dos factos: as entradas na universidade estavam difíceis e as saídas para o mercado de trabalho incertas (afinal os putos até tinham razão).
Hoje, com o agravamento do diagnóstico social já somos assumidamente a “geração do desenrasca”. Não é que tenhamos grandes dificuldades em “desenrascarmo-nos” (afinal somos os primeiros promotores da sociedade de informação), não é esse o caso, mas somos certamente nós aqueles que vão desenrascando as empresas cá do burgo. Somos as unidades de produção de maior rendibilidade, deixamo-nos explorar e a quase tudo nos sujeitamos para construir uma carreira.
Daqui por dez anos, qual será a percepção que teremos sobre a actual “geração rasca”, aquela que nós éramos há 10 anos atrás. Por método idiossincrático começaria por descrevê-la, e por coerência histórica e dos costumes por etiquetá-la.
Esta é a Geração Tabuleiro.
O “jovem” (16 anos) chega do café da esquina, onde esteve com os amigos a fazer gazeta da aula de Português, mete a chave à porta, entra em casa e encontra o silêncio. Fecha-se no quarto, não por necessitar de privacidade (afinal não está ninguém em casa), mas porque se sente mais seguro assim. Põe o sonoro a meio volume liga a PlayStation. Depois de ter suicidado a Lara Croft umas dezenas de vezes, dá-lhe o apetite... Vai à cozinha, tira a lasanha do congelador, põe a lasanha no micro-ondas, tem cinco minutos para ir a buscar. Tabuleiro, comando do vídeo, comando da aparelhagem, telemóvel, garrafa de Cola, e convém não esquecer o garfo, senão estiver nenhum lavado… come-se com os dedos (afinal não está ninguém em casa…).
Passados os cinco minutos, o nosso espécimen da Geração Tabuleiro tem o mundo todo em cima dos joelhos, e ao alcance de um polegar. A lasanha está igual à de ontem, o Howard Stern já não consegue inventar mais palavrões, e a Cola não está tão fresca como devia, mas o nosso jovem pensa que “é tudo dele”.
É tudo dele e é tudo tão fácil. Ele pensa que quer, e o que ele pensa que quer, ele consome! Sem angústias ou desejo, ele emita dezenas de milhões de jovens que, como ele, estão à mesma hora, vestidos da mesma maneira, a fazer a mesmíssima coisa, movidos pelas mesmas desmotivações. O grande desafio deste jovem é a fuga à “geração tabuleiro”. Tarefa difícil para quem tem uma visão literalmente quadrada do mundo, toda ela subdividida em pequenos pixels.
Parece que as primeiras vítimas da globalização são mesmo os adolescentes.
Crescer num Mundo global. É não saber a diferença entre Bolonha ou Nova Iorque, já que ambas se fundem, como o queijo, numa lasanha pré congelada.
A americanização mediática não incute a paixão pela diferença, como apesar de tudo nós “geração rasca”, fomos experimentando via Jorge Palma ou “by Morrissey”.
Como aprendizes de Justin Timberlake, olham com indiferença o que não lhes parece “cool”, empobrecendo, deste modo, o seu processo de aprendizagem e crescimento.
Nunca como hoje os jovens tiveram tão pouco tempo, porque o tempo passa entre a alienação e a distracção com muito pouco de afirmação e de descoberta. E a criatividade, essa, cada vez mais adormecida.
Como pode fugir esta geração do comando da televisão e do tabuleiro da lasanha?
Bom, para começar é preciso quererem.
Mas existirão rotas de fuga?

Ámen.

3 comentários:

Luís Viegas disse...

Grande Padre Amaro! Peço a sua benção... Só me questiono numa coisa: haverá inocentes neste processo de "tabuleirização", afinal não era mais ou menos isto (fazer só o que nos dá na bolha) que a raça humana no geral pretendia? E muito mais haveria para divagar... O problema por vezes, entre outros, é que não se criam os adequados mecanismos de motivação e ficamos reféns de um desejado bem estar social e das suas mal executadas políticas.

Nuno Félix disse...

El Cid o grande!
Pois é, e desde d quando é que dar às crianças tudo o que elas pedem resulta em boa educação?
Inocentes?! Ninguem é inocente, Mas não somos todos vitimas. Há quem lucre muito com esta alienação à escala global. É preciso agitar as almas para que as pessoas não adormeçam.

Marcos Caldeira disse...

A Sua Bençao... Nao sei se leram o artigo da Visao, ajuda a perceber um pouco o seu artigo?
Se perguntar a um tabuleiro os projectos que tem, em 99% dos casos será uma hipoteca e um carro novo, porque o Golf ja o pai lhe ofereceu...